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A Sinagoga de Beit Alpha e o Mosaico do Zodíaco
Em 1929, um grupo do Kibutz Beit Alpha, no Vale de Beit She’an, ao nordeste de Israel, estava cavando canais de irrigação e encontrou um piso de mosaico escondido havia quase 1.500 anos. Era o chão de uma sinagoga do período bizantino, construída no século VI. Escavações posteriores, nos anos 1960, revelaram também as casas do povoado judeu que existia ao redor dela.
Como era a sinagoga
O prédio media cerca de 20 por 14 metros e, como era tradição, ficava orientado na direção de Jerusalém. Tinha três partes: um pátio, um vestíbulo (hall de entrada) e a sala de oração principal. Colunas de pedra dividiam essa sala em uma nave central e dois corredores laterais, e provavelmente havia uma galeria no segundo andar reservada às mulheres.
Os três mosaicos do chão
O piso da sala de oração tem três painéis de mosaico, lado a lado:
- A Arca da Torá: mostra o móvel sagrado onde ficam os rolos da Torá, cercado por leões e outros objetos usados no culto judaico.
- A roda do zodíaco: os 12 signos astrológicos dispostos em círculo, com a figura do deus grego Hélio (o sol) no centro e as quatro estações do ano representadas nos cantos.
- A Ligação de Isaque: a cena de Gênesis 22, com Abraão, o altar em chamas e uma mão que desce das nuvens, interrompendo o sacrifício.
O corredor oeste da sala tem mosaico com padrões geométricos. O corredor leste é todo em mosaico branco, sem decoração.
Logo na entrada da sala de oração há duas inscrições dedicatórias, uma em aramaico e uma em grego, com um leão e um touro de cada lado, virados um para o outro. A inscrição em aramaico diz que o piso de mosaico foi feito durante o reinado do imperador Justino, provavelmente Justino I, no início do século VI, e que o custo foi pago com doações de membros da comunidade. A inscrição em grego diz: “Que os artesãos que fizeram esse trabalho, Marianos e seu filho Hanina, sejam lembrados.”
A Ligação de Isaque
No painel norte, conforme Gênesis 22:1-19: à direita, um altar com chamas subindo. Abraão está ao lado, com uma mão segurando o filho Isaque e a outra um facão longo. Os nomes de Abraão e Isaque estão escritos acima das figuras. Uma mão emerge de uma nuvem acima dos dois, simbolizando o anjo de Deus. Ao lado, palavras em hebraico que dizem “não estendas a mão [sobre o menino]”. O carneiro e os dois servos com o jumento aparecem atrás de Abraão.
O zodíaco
No painel central. Esses signos astrológicos, mesmo condenados pelos profetas, eram usados como elemento decorativo tanto em igrejas quanto em sinagogas do período bizantino. Os doze signos estão dispostos em círculo, acompanhados dos nomes em hebraico. No centro da roda, o deus-sol Hélio aparece sentado numa carruagem puxada por quatro cavalos. As quatro estações do ano aparecem nos cantos do painel como bustos de mulheres aladas usando joias, com os meses hebraicos que iniciam cada estação: Nissan (primavera), Tamuz (verão), Tishrei (outono) e Tevet (inverno).

Mosaico do zodíaco, Sinagoga de Beit Alpha. Fonte: Wikimedia Commons, domínio público.
O mosaico do zodíaco é o que mais chama atenção. Ver um símbolo greco-romano, Hélio, deus do sol, decorando o chão de uma sinagoga surpreendeu os arqueólogos. Isso contrariava a ideia de que o judaísmo antigo era totalmente avesso a imagens e símbolos pagãos.
O que isso significa
A sinagoga de Beit Alpha não é um caso isolado. Outras sinagogas do mesmo período, na mesma região, também têm mosaicos de zodíaco parecidos. O que os pesquisadores concluem é que essas comunidades judaicas viviam em contato próximo com a cultura greco-romana ao redor delas, e adotaram esse tipo de imagem como decoração. Isso não significa que elas passaram a adotar a astrologia como prática religiosa.
Vale lembrar: os mesmos 12 signos que aparecem nesse mosaico correspondem, na tradição judaica, aos 12 meses do calendário hebraico. É a mesma associação que documentamos na tabela de mazalot, meses e tribos. A diferença é que ali a tradição rabínica, como a da Chabad, ensina que Israel foi tirado da influência desses astros. Aqui, na arqueologia, vemos que o símbolo circulava como arte popular, num período e lugar específicos da história judaica.
Isso não é contradição. Conhecer o céu, e até usar seus símbolos como decoração, nunca foi o mesmo que se curvar diante dele. É essa mesma distinção, entre reconhecer uma influência e entregar o controle da vida a ela, que explicamos com mais profundidade em Por Que Astrologia Não É Idolatria, com base tanto na tradição judaica quanto na Bíblia.